sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Ricardo Araújo Pereira em Ponta Delgada


Gostei imenso de saber, pelo Expresso das Nove, que Ricardo Araújo Pereira vem à Livraria Solmar lançar, “em primeira mão”, o seu livro Novas Crónicas da Boca do Inferno, no próximo dia 12 de Dezembro. Mas fiquei um pouco triste por ver um ligeiro deslize linguístico na notícia referente à feira do livro desta livraria, cujo objectivo, segundo este jornal sempre tão cuidadoso, “é fortalecer o interesse pelo livro e incentivar o gosto pela leitura, procurando ir de encontro ao interesse dos consumidores”? De encontro? Para isso acontecer era preciso que a praça central do Solmar Avenida Center apresentasse uma instalação semelhante à da foto e que os consumidores estivessem um bocado distraídos. Agora, ao encontro…

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Massacre no galinheiro


Só mortas as galinhas perdem o pio. Raskolnikov, ajuda-me!

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

Visão de burro? Não, obrigada.

Francisco Goya, Asta su abuelo, 1796.

“Não tinha jeito para a literatura, não gostava de descrições solenes, densas, falsas – limitava-se a pedir a Rosa que lhe contasse a história de A Montanha Mágica, ou que lhe escondesse A Morte em Veneza. (…) Rosa, agora deitada no sofá, e já não sentada, rodeada de livros, Golding, Nabokov, Dostoievsky, Poe, Tolstoi, Greene, Updike, recitando um poema, como ela fazia quando a noite terminava sem sexo, os dois deitados lado a lado, olhando para as estantes, olhando para a janela, olhando para a escuridão. (…) A leitura é uma terapia. Olhou os livros em frente. Os clássicos, Dom Quixote em dois volumes, Balzac, Orgulho e Preconceito, O Monte dos Vendavais, O Conde de Montecristo, As Vinhas da Ira, O Fio da Navalha, A Dama do Lago, O Imenso Adeus, se ele lesse os grandes clássicos seria uma pessoa melhor?, uma pessoa mais tranquila?, o seu coração funcionaria sem altas e baixas pressões, como um navio em direcção ao azul do mar?, encararia a proximidade da morte com outra leveza?, passaria a comer pão integral e faria uma dieta de vegetais e saladas?, interessar-se-ia pelas religiões orientais?”

Em O Mar em Casablanca de Francisco José Viegas, Rosa, amante da leitura e de Jaime Ramos, é uma mulher preocupada em tratar do bem-estar físico e mental daquele que é o detective mais emblemático do romance português actual, obrigando-o a comer com parcimónia e a ler os clássicos. Embora contrariado, Ramos vai fazendo algumas cedências, não deixando, porém, de se questionar quanto às vantagens efectivas quer das dietas, quer desse tipo de literatura. Em ambos os casos, elas existem, é certo. Mas será que faz sentido concentrarmos os nossos esforços de leitura em obras com mais de meio século em nome de um padrão de cultura dito “mais elevado”? Sim, se pensarmos na leitura dos clássicos como um instrumento fundamental para adquirirmos conhecimento, aumentarmos o nosso vocabulário e a nossa competência, tanto em termos de expressão como de redacção, e, sobretudo, para percebermos como o belo é intemporal. No entanto, apesar de certas obras serem incontornáveis, não faz qualquer sentido adoptarmos um comportamento elitista e desprezarmos o que é novo. Há escritores contemporâneos excelentes, que seduzem pela escrita de qualidade, pela grande criatividade, pela transgressão das regras, pelo tratamento da condição humana e pela reflexão sobre a sociedade actual, factores imprescindíveis para quem não gosta de se alienar do mundo em que vive. Há outros não tão bons, outros péssimos, sendo importante, contudo, experimentarmos sem preconceitos, dando oportunidade à nossa curiosidade, para podermos chegar às nossas próprias conclusões.

Da mesma forma que uma dieta equilibrada e variada vai permitir ao nosso corpo funcionar melhor, a leitura de diferentes tipos de livros vai permitir que a nossa mente opere de forma mais estruturada, vai desenvolver a nossa capacidade de pensar e o nosso espírito crítico e, consequentemente, vai ensinar-nos a discernir entre o que é bom e o que é mau. Se lermos os grandes clássicos seremos pessoas melhores? Provavelmente, sim, mas, na roda dos livros, não podemos ser restritivos em demasia, sob pena de ficarmos com a visão limitada dos burros.

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

Nunca mais

- Vem comigo para casa. – Não dá. – Deixa de ser chato, vem. – Não, não posso. – O que é? Já não me queres? – Quero, mas agora tenho namorada. – E daí? – Daí que ela pode saber. – Não vai saber nada, vem. – É melhor não. – Porquê? – Gosto muito dela; não quero arriscar. – Vá lá. – Hum… – Ou vens hoje ou nunca mais me tocas. Ele foi.

Em casa, ela deixou que ele a percorresse com os seus dedos ágeis e habilidosos. Deixou que aquele corpo liso e elástico se colasse ao seu. Deixou que aquela voz quente e macia lhe sussurrasse palavras de ordem e de prazer. Deixou que ele a amasse e penetrasse e lambesse devagarinho. Deixou que ele lhe dissesse o que fazer. E, lutando para se manter relevante, deslizou, intensa, pelos lençóis, até a sua boca de poucas palavras e de muitas artes o transformar num boneco ensandecido. Sorriu. Possuía-o, por fim. Mas, quando o sabor agridoce do sémen anunciou o clímax, ele levantou-se, bruscamente, e, sem uma carícia ou uma palavra, saiu do quarto. Passados uns minutos, voltou. Tacteou no escuro. Agarrou-a pelo queixo. Afastou-lhe os lábios ainda melados e tomou-lhe a língua entre os dedos nervosos. Ela sentiu um batimento exaltante, um formigueiro nas veias, um calor espesso atravessar-lhe o sexo e depois, ah, depois…um frio metálico na língua, uma dor superlativa, um zumbido estridente e uma nuvem escura e fria descer sobre a cama. Só então gritou. Gritou um grito gutural e desesperado e acendeu a luz para se ver indefesa, ensanguentada, mutilada, anulada; para o ver gloriosamente nu e o ouvir dizer raivoso: Nunca mais. A tua boca nunca mais.

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Dá-me a tua mão

Jan Saudek, Hungry For Your Touch, 1971

Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha subreptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

Clarisse Lispector

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

x3

Joanne Woodward, As Três Faces de Eva

Quantas pessoas habitam a nossa cabeça? Uma? Duas? Várias? O que escrevemos reflecte a nossa personalidade dominante ou engloba os múltiplos fragmentos mais ou menos perceptíveis em que esta se divide? Quem gosta de uma tem, impreterivelmente, de gostar da outra, ou das outras? A verdade é que, há alguns dias, por força da questão colocada pela Menina da Rádio, decidi reler alguns dos textos menos recentes deste blogue e constatei, nada perturbada, que me é difícil discernir quem, de facto, o alimenta. Eu (a verdadeira), Maninha (a construída), ou a mescla das duas (concomitante ou alternadamente)? Fica a dúvida.

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Nostalgia

Juntos construíram cabanas na mata; subiram e desceram muros de pedra solta; tomaram banho em poças de calhaus desertos; pescaram peixinhos minúsculos e cataram brilhantes estrelas-do-mar; nadaram e mergulharam em águas límpidas; saltaram afoitos da “Ilha”; andaram à pedrada e à batatada; deram cambalhotas na relva macia; desfalcaram as árvores de groselhas do quintal vizinho; fumaram, às escondidas, cigarrinhos de várias qualidades; esfregaram a língua com terra para disfarçar o cheiro; pregaram partidas às tias solteironas; formaram uma banda; cantaram e tocaram em bares e festas de freguesia; disputaram concursos obscenos; apanharam bebedeiras ignóbeis; roubaram beijos (e não só) às amigas e às amigas das amigas; discutiram e exploraram detalhes do corpo feminino; pediram conselhos à “mana” mais velha; percorreram quilómetros no Citroën do momento; ouviram música com o volume no máximo; fizeram javardices em restaurantes inomináveis; disseram todos os palavrões do mundo; urinaram no depósito de gasolina de veículos motorizados; brigaram com os totós do Liceu; envergonharam os mais crescidos que os acompanharam ao cinema; riram até lhes doer a alma; praticaram o "assobio"; foram a todos os concertos possíveis; entraram por terra dentro em várias discotecas; partiram a loiça toda; aproveitaram a infância e adolescência com ganas e acreditaram no valor eterno da amizade. Os miúdos que eu vi crescer são, agora, adultos, independentes e responsáveis. Tenho saudades.

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

A Morte de Bunny Munro

Pormenor da capa da edição australiana

“…a minha mulher enforcou-se na grade de segurança do meu maldito quarto. O meu filho está lá em cima e não faço a porra duma ideia do que fazer com ele. O meu velho está prestes a bater a bota. Moro numa casa assombrada para onde tenho medo de voltar. Vejo fantasmas do caralho para todo o lado onde me viro. Uma fufa maluca e fodida partiu-me o nariz ontem e tenho uma ressaca que não dá para acreditar.” Assim é Bunny Munro, de Nick Cave: um tarado, depravado, excessivo, vulgar, putanheiro, punheteiro e decadente vendedor de produtos de beleza e adorador de vaginas. A sua vida resume-se a um cocktail de drogas, álcool e sexo até que, por força do suicídio da mulher, tem de encarar a realidade e dar atenção ao filho de nove anos –uma tarefa que se revela particularmente difícil, já que tem a mente muitíssimo afectada pelas substâncias (legais e ilegais) que ingere em doses maciças.

Ao longo de 290 páginas, Bunny tenta, com um êxito relativo, impingir os seus produtos de beleza a mulheres carentes e descompensadas, aproveitando esse facto para fornicar o máximo possível, não sem sofrer um ou outro desaire, de que se vinga sem pejo nem delicadeza: “O riso de Charlotte segue Bunny, enquanto ele se precipita em direcção à casa de banho. Sente uma fúria violenta e fervente em relação a ela, mas não fica totalmente surpreendido por ter visões rápidas da sua vagina a soltar faíscas. Entra na casa de banho furioso, tacteia a braguilha e solta um jacto de urina com tal força que até lhe doem os ossos da cara. (…) – Puta de merda – murmura, enquanto lhe mija no tapete. Depois mija nas paredes lilás, na cesta cheia de revistas, e com um grande floreado põe-se em bicos dos pés e mija na escova de dentes eléctrica que está na prateleira de vidro ao lado do lavatório.” Enfim, Bunny chafurda na lama (e numa data de vaginas, também) até a morte lhe proporcionar a redenção, o que acontece com recurso a imagens apocalípticas de óbvio pendor religioso, com contornos de bad trip. A culpa, o castigo, e o perdão estão bem presentes no final do livro, reforçando a impressão de que Bunny é, de alguma forma, o alter-ego de Cave, aproveitando este a escrita para, à laia de catarse, expulsar, definitivamente, os seus demónios e reafirmar a sua própria salvação.

A linguagem utilizada é provocadora, agressiva, porca e amoral, mas, ao mesmo tempo, engenhosa, acessível e hilariante, muito na onda de Irvine Welsh (Trainspotting e Porno, principalmente), o que faz do livro uma leitura desaconselhada para meninas pudicas e filhinhos do papá. Ao El País, Nick Cave disse que "A Morte de Bunny Munro é um romance de aeroporto que se lê de uma assentada.” É verdade. Mas é um romance de aeroporto muito bem esgalhado.

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Conservada?

Cindy Sherman, 2003

Que os homens são de Marte e as mulheres de Vénus já todos sabemos. Agora, que os primeiros digam às segundas “estás muito bem conservada”, pensando tratar-se de um grande elogio, é deprimente e demonstrativo da completa falta de sintonia entre os sexos. Mulher nenhuma gosta de ser vista como um objecto de madeira velha, mesmo que sem caruncho.

segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

Pretérito Imperfeito


Eras uma Deusa. Pretérito Imperfeito do Indicativo: demolidor, como a passagem do tempo.