
sexta-feira, 20 de Novembro de 2009
Ricardo Araújo Pereira em Ponta Delgada

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009
quarta-feira, 18 de Novembro de 2009
Visão de burro? Não, obrigada.
Francisco Goya, Asta su abuelo, 1796.Em O Mar em Casablanca de Francisco José Viegas, Rosa, amante da leitura e de Jaime Ramos, é uma mulher preocupada em tratar do bem-estar físico e mental daquele que é o detective mais emblemático do romance português actual, obrigando-o a comer com parcimónia e a ler os clássicos. Embora contrariado, Ramos vai fazendo algumas cedências, não deixando, porém, de se questionar quanto às vantagens efectivas quer das dietas, quer desse tipo de literatura. Em ambos os casos, elas existem, é certo. Mas será que faz sentido concentrarmos os nossos esforços de leitura em obras com mais de meio século em nome de um padrão de cultura dito “mais elevado”? Sim, se pensarmos na leitura dos clássicos como um instrumento fundamental para adquirirmos conhecimento, aumentarmos o nosso vocabulário e a nossa competência, tanto em termos de expressão como de redacção, e, sobretudo, para percebermos como o belo é intemporal. No entanto, apesar de certas obras serem incontornáveis, não faz qualquer sentido adoptarmos um comportamento elitista e desprezarmos o que é novo. Há escritores contemporâneos excelentes, que seduzem pela escrita de qualidade, pela grande criatividade, pela transgressão das regras, pelo tratamento da condição humana e pela reflexão sobre a sociedade actual, factores imprescindíveis para quem não gosta de se alienar do mundo em que vive. Há outros não tão bons, outros péssimos, sendo importante, contudo, experimentarmos sem preconceitos, dando oportunidade à nossa curiosidade, para podermos chegar às nossas próprias conclusões.
Da mesma forma que uma dieta equilibrada e variada vai permitir ao nosso corpo funcionar melhor, a leitura de diferentes tipos de livros vai permitir que a nossa mente opere de forma mais estruturada, vai desenvolver a nossa capacidade de pensar e o nosso espírito crítico e, consequentemente, vai ensinar-nos a discernir entre o que é bom e o que é mau. Se lermos os grandes clássicos seremos pessoas melhores? Provavelmente, sim, mas, na roda dos livros, não podemos ser restritivos em demasia, sob pena de ficarmos com a visão limitada dos burros.
sexta-feira, 13 de Novembro de 2009
Nunca mais
Em casa, ela deixou que ele a percorresse com os seus dedos ágeis e habilidosos. Deixou que aquele corpo liso e elástico se colasse ao seu. Deixou que aquela voz quente e macia lhe sussurrasse palavras de ordem e de prazer. Deixou que ele a amasse e penetrasse e lambesse devagarinho. Deixou que ele lhe dissesse o que fazer. E, lutando para se manter relevante, deslizou, intensa, pelos lençóis, até a sua boca de poucas palavras e de muitas artes o transformar num boneco ensandecido. Sorriu. Possuía-o, por fim. Mas, quando o sabor agridoce do sémen anunciou o clímax, ele levantou-se, bruscamente, e, sem uma carícia ou uma palavra, saiu do quarto. Passados uns minutos, voltou. Tacteou no escuro. Agarrou-a pelo queixo. Afastou-lhe os lábios ainda melados e tomou-lhe a língua entre os dedos nervosos. Ela sentiu um batimento exaltante, um formigueiro nas veias, um calor espesso atravessar-lhe o sexo e depois, ah, depois…um frio metálico na língua, uma dor superlativa, um zumbido estridente e uma nuvem escura e fria descer sobre a cama. Só então gritou. Gritou um grito gutural e desesperado e acendeu a luz para se ver indefesa, ensanguentada, mutilada, anulada; para o ver gloriosamente nu e o ouvir dizer raivoso: Nunca mais. A tua boca nunca mais.
quarta-feira, 11 de Novembro de 2009
Dá-me a tua mão
Jan Saudek, Hungry For Your Touch, 1971existe um sentir que é entre o sentir
segunda-feira, 9 de Novembro de 2009
x3
Joanne Woodward, As Três Faces de Evaquarta-feira, 4 de Novembro de 2009
Nostalgia
Juntos construíram cabanas na mata; subiram e desceram muros de pedra solta; tomaram banho em poças de calhaus desertos; pescaram peixinhos minúsculos e cataram brilhantes estrelas-do-mar; nadaram e mergulharam em águas límpidas; saltaram afoitos da “Ilha”; andaram à pedrada e à batatada; deram cambalhotas na relva macia; desfalcaram as árvores de groselhas do quintal vizinho; fumaram, às escondidas, cigarrinhos de várias qualidades; esfregaram a língua com terra para disfarçar o cheiro; pregaram partidas às tias solteironas; formaram uma banda; cantaram e tocaram em bares e festas de freguesia; disputaram concursos obscenos; apanharam bebedeiras ignóbeis; roubaram beijos (e não só) às amigas e às amigas das amigas; discutiram e exploraram detalhes do corpo feminino; pediram conselhos à “mana” mais velha; percorreram quilómetros no Citroën do momento; ouviram música com o volume no máximo; fizeram javardices em restaurantes inomináveis; disseram todos os palavrões do mundo; urinaram no depósito de gasolina de veículos motorizados; brigaram com os totós do Liceu; envergonharam os mais crescidos que os acompanharam ao cinema; riram até lhes doer a alma; praticaram o "assobio"; foram a todos os concertos possíveis; entraram por terra dentro em várias discotecas; partiram a loiça toda; aproveitaram a infância e adolescência com ganas e acreditaram no valor eterno da amizade. Os miúdos que eu vi crescer são, agora, adultos, independentes e responsáveis. Tenho saudades.segunda-feira, 2 de Novembro de 2009
A Morte de Bunny Munro
“…a minha mulher enforcou-se na grade de segurança do meu maldito quarto. O meu filho está lá em cima e não faço a porra duma ideia do que fazer com ele. O meu velho está prestes a bater a bota. Moro numa casa assombrada para onde tenho medo de voltar. Vejo fantasmas do caralho para todo o lado onde me viro. Uma fufa maluca e fodida partiu-me o nariz ontem e tenho uma ressaca que não dá para acreditar.” Assim é Bunny Munro, de Nick Cave: um tarado, depravado, excessivo, vulgar, putanheiro, punheteiro e decadente vendedor de produtos de beleza e adorador de vaginas. A sua vida resume-se a um cocktail de drogas, álcool e sexo até que, por força do suicídio da mulher, tem de encarar a realidade e dar atenção ao filho de nove anos –uma tarefa que se revela particularmente difícil, já que tem a mente muitíssimo afectada pelas substâncias (legais e ilegais) que ingere em doses maciças.
Ao longo de 290 páginas, Bunny tenta, com um êxito relativo, impingir os seus produtos de beleza a mulheres carentes e descompensadas, aproveitando esse facto para fornicar o máximo possível, não sem sofrer um ou outro desaire, de que se vinga sem pejo nem delicadeza: “O riso de Charlotte segue Bunny, enquanto ele se precipita em direcção à casa de banho. Sente uma fúria violenta e fervente em relação a ela, mas não fica totalmente surpreendido por ter visões rápidas da sua vagina a soltar faíscas. Entra na casa de banho furioso, tacteia a braguilha e solta um jacto de urina com tal força que até lhe doem os ossos da cara. (…) – Puta de merda – murmura, enquanto lhe mija no tapete. Depois mija nas paredes lilás, na cesta cheia de revistas, e com um grande floreado põe-se em bicos dos pés e mija na escova de dentes eléctrica que está na prateleira de vidro ao lado do lavatório.” Enfim, Bunny chafurda na lama (e numa data de vaginas, também) até a morte lhe proporcionar a redenção, o que acontece com recurso a imagens apocalípticas de óbvio pendor religioso, com contornos de bad trip. A culpa, o castigo, e o perdão estão bem presentes no final do livro, reforçando a impressão de que Bunny é, de alguma forma, o alter-ego de Cave, aproveitando este a escrita para, à laia de catarse, expulsar, definitivamente, os seus demónios e reafirmar a sua própria salvação.
A linguagem utilizada é provocadora, agressiva, porca e amoral, mas, ao mesmo tempo, engenhosa, acessível e hilariante, muito na onda de Irvine Welsh (Trainspotting e Porno, principalmente), o que faz do livro uma leitura desaconselhada para meninas pudicas e filhinhos do papá. Ao El País, Nick Cave disse que "A Morte de Bunny Munro é um romance de aeroporto que se lê de uma assentada.” É verdade. Mas é um romance de aeroporto muito bem esgalhado.





